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Blog de escrita nas horas extra dos dias

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Blog de escrita nas horas extra dos dias

# Da sociedade automatizada

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Cinemagraph de Metropolis (1927)

A pandemia trouxe uma vida ainda mais automatizada, em que quem nos responde são os computadores, os avatares online que nos perguntam se queremos ajuda, os "taskers" com agendamento para montarem móveis , e até da escola dos nossos filhos nos respondem dizendo que determinados recados é melhor colocarmos na plataforma lms. 

Sinto a falta do contacto presencial com os amigos , com os conhecidos e até circunstancialmente com os funcionários das lojas do cidadão. Para se tratar de uma mera mudança de um dístico de residente é uma complicação para agendar, para seguir instruções online. Tem de ser tudo agendado com os serviços, por causa do Covid19. Mariano Gago que criou o Simplex meteria as mãos à cabeça se ainda aqui estivesse. Complicadex a automatização dos procedimentos. Não há agilização mas uma gritante complicação.

Se muitas vezes os trabalhadores dos call-centers atendem claramente em casa, noutras não há voz - apenas "carregue 1, tecle 2, deixe o seu número e será contactado em 48h". Palmas para muitos como hoje um trabalhador de um serviço público que às 7h53 já estava a responder a um email meu.Depois outra trabalhadora do mesmo serviço respondeu ao mesmo assunto passadas 6 horas. 

Para além disto, os agendamentos fazem-se por email e não respondem. A mensagem automática surge "responderemos em breve". De repente, tem-se a noção de que há uma estagnação causada pela pandemia mas também pela máquina gigante da burocracia.

Tem sido de aplaudir o trabalho da Task Force vacinando o maior número de pessoas, com ou sem agendamento, mas, de facto, o líder é um Vice-Almirante dos mares, com outra visão desta guerra em que vivemos.

Menos automatização , por favor! ( note-se isto é um blogue mas tenho-me dedicado agora muito mais ao objeto cultural mais interessante de todos: o livro!).

"Poderemos perguntar-nos se valerá a pena, neste momento, voltar a reafirmar que o investimento em ciência, em investigação científica e tecnológica, assim como o investimento em formação superior, aumentam a produtividade e promovem o crescimento económico e o desenvolvimento social e cultural, ou que a cultura científica é fonte de liberdade e de cidadania."

Mariano Gago, excerto do discurso no Parlamento (10 de novembro de 2010)

@mmalheiro

publicado às 23:00

# Do ritmo circadiano de um trabalhador

Hoje surgiu a notícia (Fonte:LUSA) de que a Fenprof pediu ao Ministério Público para averiguar a morte repentina de três professores: uma em Manteigas em plena sala de aula, outra na Covilhã em serviço oficial ( corrigia as Provas de Aferição) e outro em Odivelas ( enviava as classificações por email). Como professora considero chocante esta notícia e lamento muitíssimo pelos meus colegas.

Há cerca de 7 meses um familiar meu teve um ataque cardíaco fulminante em pleno local de trabalho , num prestigiado Banco português. Com apenas 53 anos o  excesso de trabalho,- ter muito stress-, foi a justificação dada aos familiares diretos. Colegas que assistiram impotentes à sua hora fatal e tentaram por todos os meios a reanimação estão ainda de baixa psiquiátrica, a família ainda em choque com a perda inesperada.

Tanto no caso dos colegas como do meu familiar o problema é o mesmo: a doença do séc. XXI ,  o burnout.Primeiro, o excesso de trabalho quer a nível de procedimentos burocráticos no caso dos professores- que, muitas vezes se apresenta pela duplicação ou triplicação de procedimentos, nada "simplex" ,  tudo muito inclusivo, com muitas medidas universais, adicionais, etc. Depois, a disponibilidade do professor/ trabalhador- contactável via email, telefone, pessoalmente, fora do horário de trabalho, aos fins de semana, feriados ( obrigada a quem inventou o modo reencaminhamento do email oficial...).

Segue-se o trabalho que se leva para casa. No caso de um trabalhador da área financeira, passa pelo trabalho em modo controlo remoto, fora das horas de expediente. No caso de um professor há também muito trabalho- quer na preparação das aulas, preparação de reuniões, correção de testes de avaliação e todo o tipo de instrumentos de avaliação aplicáveis, correção de provas de aferição, exames nacionais, etc e plataforma informática. Onde fica a vida pessoal? Tem de ser meticulosamente programada como a escala de Bancos dos médicos.

O cumprimento do dever por parte de um trabalhador não é consentâneo com faltas por motivo de doença do próprio, dos familiares diretos ( pais, por exemplo) ou de filhos menores ( até aos 12 anos). Muitas vezes isso é visto como uma fraqueza por parte do trabalhador. Mau para a sua avaliação de desempenho. Por isso, os professores e todos os trabalhadores cumpridores ou entram em burnout ou partem fatalmente. Uma tragédia. 

Há 10 anos numa escola onde dei aulas e donde se avistava a pista 5.2 do Aeroporto de Lisboa lembraram-se de criar aulas de Yoga para professores, depois do serviço. No meu caso não corria muito bem , pois no meio do Ooomm só pensava na lista de compras do supermercado e não desligava. Foi nessa época que comecei a caminhar e a correr, primeiro na pista do Guincho, depois no paredão de Oeiras, fizesse sol ou chuva, seguindo as passadas de Murakami. Há três anos a cardiologista  recomendou-me muita caminhada e melatonina ( na versão natural)- sentir o coração como que a saltar-nos pela boca é aflitivo. Mais do que aflitivo. Responderem-nos-  tive um problema cardíaco - e então?- revela a perfeita desumanidade do meio laboral. 

Eu e muitos colegas não conseguimos este ano, nem correr, nem caminhar, nem esticar as pernas entre testes, reuniões de encarregados de educação, reuniões , papéis, papéis, papéis. Submergidos em papéis.

Valeu-me a alegria dos meus e a noção de que a saúde para viver e para os criar está acima de tudo, até do trabalho.

Aos meus colegas professores

Ao meu primo Xana, in memoriam

@mmalheiro

publicado às 23:33

# A difícil arte de simplificar

Numa sociedade, em que cada vez mais tudo é preparado para facilitar os dias, como o toque de uma APP para nos dizer que temos de beber água ou de que hoje é o dia dos amigos ou dos fulanos ou do café, etc, etc,e, para de certa forma inconscientemente "estupidificar" o pensamento, é cada vez mais difícil simplificar.

Como os formulários que se tem de preencher na vida burocrática, o carimbo que tem de estar no local certo, a designação correta da atividade profissional na CAE senão o sistema não aceita, assim são os dias, paradoxalmente, em pleno século XXI, a complicar, a deixar de "saber ver" de uma forma "clean".

Temos de seguir a "complicação" no meio da multidão, mesmo que não nos identifiquemos.

Como escrevia Thoreau ( in Walden) há mais de um século :"Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (...) A nossa vida é uma Confederação Germânica, composta de insignificantes estados e com as fronteiras sempre a flutuar. (...) A própria nação, com todas as chamadas melhorias internas, aliás externas e superficiais, é apenas uma instituição desajeitada e sufocante, atravancada de móveis e obstruída pelas suas próprias armadilhas (...). Mal saberia Thoreau...

Há precisamente uma semana, um professor português, considerado um dos melhores do mundo, deu uma aula magistral, de uma forma simples, original,

 

                                  remetendo para uma ideia que partilho. ( Anúncio dos 50 anos BIC). 

                                      @marinamalheiro

 

publicado às 13:01

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