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horas extra

Blog de escrita nas horas extra dos dias

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Blog de escrita nas horas extra dos dias

# 300 horas de teletrabalho depois , um" tea time"

Hoje li, mesmo aqui no Sapo, que há empresas que estão a motivar os trabalhadores que estão em teletrabalho: aulas de Yoga, reuniões Teams, Meets, registos da atividade diária dos colaboradores de modo divertido. 

Uma das empresas de informática, que é apenas a do senhor dono de todas as "janelas" do sistema informático pioneiro , há alguns anos atrás já proporcionava pausas aos trabalhadores com sessões de massagem às costas, natação  e ginásio. Tudo para aumentar a produtividade e, no fundo, motivar para o trabalho. Ui, haja alegria para fazer pão, planos semanais, aulas síncronas, assíncronas, trabalho autónomo e formação online, ao mesmo tempo que se adormece o filho nos braços.

Neste momento a classe docente e milhares de pais confinados ( muitos são professores) precisam de algum ânimo, nem que seja digital, até ao desconfinamento que será, provavelmente, depois da corrida aos ovos da Páscoa.

Portanto, um momento "chá das cinco" todas as semanas com as equipas de trabalho das escolas, em direto com os filhos a interromperem uma aula síncrona para verem os "SuperWings", em cima da bicicleta de aulas de cycling que se comprou para abater os kilos do confinamento de há um ano, seria como diria "a amiga Olga" , Uau!

@mmalheiro

Nota.Obrigada à equipa do Sapo pelo destaque de ontem .

 

publicado às 23:25

# Do prazer de uma boa bica tirada à pressão, em tempo de pandemia

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via Buzzfeed.com in Pinterest

Li ontem que provavelmente serão necessários 7 anos para que o Mundo volte à "normalidade", pré-Covid19, dado que só nesse momento é que se prevê que a população esteja toda vacinada.

Habituei-me a ler revistas científicas especializadas, como a Lancet , e a ler os últimos papers de investigadores a nível mundial sobre este "filme de ficção científica" em que vivemos há quase um ano. Ao mesmo tempo, grassam dados e dados económicos sobre as consequências desta imprevista pandemia que nos conduzirá a uma recessão económica agora.

Em Lisboa são muitas as tabuletas de "trespasse", "vende-se loja" ou "fechado por tempo indeterminado" num silêncio que habita agora as ruas, constrastando com o frenesim de 2019 de tuc-tuc, autocarros turísticos, e milhares de turistas pela cidade. Uma economia em superavit em final de 2019.

Leio hoje que há 300 000 pessoas desempregadas em Portugal, 22000 não têm direito sequer ao subsídio social de desemprego. Em paralelo a previsão de 1000 pessoas internadas para a semana por causa deste "bicho maldito".

Em meu redor sei de casos de colegas  e amigos com familiares infetados, isolados em casa, com todo o equipamento covid e de oxímetro em riste, em contagem diária do oxigénio para que não necessitem de ser hospitalizados.

Um batimento cardíaco mais fraco levou uma amiga minha a percorrer hospitais privados que se recusaram a receber a sua familiar infetada por Covid19. Acabou por ir parar às urgências do maior hospital de Lisboa. A cadeira de rodas onde era transportada esta familiar nem sequer conseguia passar para o toldo à porta do hospital pois nem sequer tem uma rampa. Regressaram todos a casa. "É o que há . Se não quer, não quer", foi esta a resposta da funcionária para esta minha amiga perante a sua indignação face às condições de entrada de uma idosa infetada com Covid19.

Esta frase tão laxista é representativa do país em que vivemos, no qual houve dinheiro para Bancos e agora não tem ou não gasta em camas de hospital, médicos e enfermeiros, em ventiladores, em boas condições hospitalares para cada português que desconta ou descontou para a Segurança Social.

Face a este estado da Res Publica só peço que reabram os cafés, eu e muitos levaremos em take-away, e disfrutaremos de um pequeno prazer, trivial, é certo, nestes dias cinzentos de pandemia, de uma boa bica tirada à pressão, cheia e sem princípio.

@marinamalheiro

à Sara

à minha mãe 

 

publicado às 11:57

# Dias de guerra a um inimigo invisível

 22 de Janeiro 2021

2º Confinamento Geral. , Cascais

Uma semana após o novo Confinamento, uma semana depois de ser das poucas da minha rua a sair ,ainda em manhãs de breu, as escolas fecharam e voltámos para casa.

Um alívio e uma pena, ao mesmo tempo. Tentámos todos, professores, alunos, auxiliares,diretores, que a gestão da pandemia nas escolas corresse bem. Achei admirável a capacidade de resistência dos miúdos mais novos e a sua adaptação a este "novo normal" que é tão estranho. Semana após semana fomos ouvindo ou que miúdos ou turmas ou colegas tinham ido para casa,em isolamento profilático, infetados, não infetados. Habituámo-nos à terminologia "Covid"- baixo risco, alto risco, teste PCR, etc

No entanto, testagem em massa não houve. Enquanto fui sabendo que entidades bancárias ou empresas , sabendo que um colaborador estava infetado, mandavam os colegas de equipa todos para casa, em isolamento profilático e submetiam-nos a testes PCR, connosco isso não aconteceu.

Uma turma, um aluno, um colega professor , infetados, e os professores continuaram todos em serviço, tendo que colocar trabalhos na aula virtual. Na véspera do encerramento das escolas, verificámos acessos à sala virtual e um dos alunos dizia se teria alucinado, se era verdade que  nos vinham testar. Falam-me em gestão de risco, dizem-me que isto é como um terramoto na vida de todos. Gestão estratégica é o que falha: prever como o inimigo invisível vai atacar é essencial.

Lisboa

No elevador do hospital somos quatro, todos de máscaras cirúrgicas. Menos gente. Voltou o medo.

O parque está vazio, as cadeiras do café estão empilhadas, a igreja fechada.

Estamos em guerra contra um inimigo invisível: já morreram mais pessoas do que na Guerra Colonial, novos e velhos, de todas as classes sociais e socioprofissionais. Lembro-me da minha aluna, infetada em início de dezembro, enervada e com medo, agora, de uma reinfeção pela nova estirpe inglesa. Alguma imunidade deves ter, digo-lhe. Suspira, aliviada. Outra , triste pela avó que morreu desta doença há um par de dias e que foi só, sem homenagens devidas.

Volto às máscaras bico de pato , as P2, e reparo que em meu redor , no hospital e na rua, ficamos todos com esta hibridez; humano e animal. Voltámos a março de 2020.

Leio papers de revistas científicas para tentar perceber como é que este inimigo se movimenta nas nossas vidas e em todo o lado.

Guardo as palavras de um jornalista desportivo, já de idade, que numa entrevista televisiva diz : "Deixe-me ter esperança, deixe-me acreditar" e as do meu filho mais novo, de terna idade, que quando o pai chega diz "Tira a máscara, pai".

@marinamalheiro

publicado às 23:36

# Da apologia do otimismo ingénuo

Em dias de contagem numérica de casos, de perdas de vidas humanas, de concelhos com elevado risco de transmissibilidade, penso de que modo é que as crianças e os jovens podem ser simplesmente isso: crianças e jovens.

Esta semana ,na escola onde dou aulas, as crianças sem professores brincavam com guarda-chuvas abertos ao contrário e saltavam alegres , de máscara posta, nas poças de água que a tempestade Bárbara deixara pelo caminho. Os meus alunos adolescentes, ao verem aqueles saltos ingénuos, estavam indignados e preocupados com aquelas crianças, dizendo que não deviam fazer aquilo, que era perigoso, perigoso brincar.

Quando falam nos elevados índices de transmissibilidade após a abertura das escolas e do trabalho das gentes, só posso defender os alunos e os meus colegas professores. Num dia com , por exemplo, seis tempos letivos, as crianças/jovens desinfetam as mãos dezasseis vezes por dia, no mínimo, e andam de máscara e estão de máscara nas aulas.

Num momento tão importante das suas vidas andam "mascarados" por culpa de uma pandemia .

Sir David Attenboroug afirmou no seu magnífico documentário "Uma vida no nosso planeta" ( 2020) - " precisamos de sabedoria".

Talvez precisemos de um otimismo ingénuo, tal como Erling Kagge escreveu no seu Filosofia para Exploradores Polares, Quetzal, Outubro de 2020: " O otimismo ingénuo é algo que, aparentemente, de modo inato, todas as crianças possuem. Na mente de uma criança todo o mundo está por explorar: o mundo está a mudar, nós também mudamos. Acho que elas têm razão. Não há uma linha de meta. " ( Tradutor Miguel de Castro Henriques).

aos meus filhos, Manel e David

aos meus alunos

@mmalheiro

 

 

publicado às 17:22

# dias de flecha e pandemia

Lisboa , 2020

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Lisboa, foto Joshua Benoliel  ( todos os direitos reservados a herdeiros de Joshua Benoliel)

26 de agosto

cerca de 6 meses desde que o pesadelo "Covid 19" invadiu o mundo.

em final de janeiro, início de fevereiro, alguém nos disse que "aquilo do Covid " estava muito longe - lá para a "Conchichina" e um humorista dizia que éramos tão bons que isto nunca chegaria cá.

foi isso que inicialmente disse aos meus alunos quando um colega teve de ir de quarentena para casa por ser "secundário".

tivemos de aprender toda a terminologia epidemiológica- secundário, terciário, primário, teste PCR , teste Covid,  teste serológico, imunidade,infetado, surto, testagem, média semanal, incidência diária e semanal do Covid 19, quarentena, isolamento voluntário, isolamento profilático, teletrabalho,de saber ler o site Word Meter Covid, de acompanhar os comentários dos jornais, de ler os artigos dos matemáticos, dos investigadores, dos epidemiologistas,de ler artigos / papers de Oxford, da Universidade do Porto, dos investigadores da Gulbenkian.

tivemos de acompanhar a contagem diária - infelizmente- dos falecidos por Covid 19, internados em cuidados intensivos, recuperados, sob o olhar pesado , embora adornado em écharpes coloridas, da DGS e Ministério da Saúde.

tivemos de saber o que é o lay-off, o desemprego massivo, as filas de fome, o déficit, o financiamento europeu.

tivemos de nos proteger de um inimigo invisível com máscaras cirúrgicas, sociais tipo 2, tipo 3, para sair de casa para ir a espaços públicos e para trabalhar, com gel desinfectante.

tivemos de manter um distanciamento social , de usar luvas para tocar à vontade nos teclados do multibanco, nos teclados das balanças do supermercado, nos botões do elevador.

tudo isto por causa do "novo normal" a que a pandemia obriga.

na cidade onde vivo, Lisboa, os velhos não foram de férias. estão ali no jardim e andam, apesar do calor imenso, de máscara na rua. Ou estão à porta da farmácia, ou nos bancos do jardim, ou em casa. muitos estão sós nas suas casas, muito doentes,mesmo com filhos. as consultas são, em alguns centros de saúde à distância, por telefone, o que é claramente insuficiente. por isso, muitos vão a agonizar para as urgências, com doenças não covid 19, mas que são doenças graves. um familiar meu, profissional de saúde, diz-me que a ordem da teleconsulta veio de cima. limitam-se a cumprir ordens.

leio um resumo num jornal diário do que se passou em Reguengos de Monsaraz. é chocante o que aconteceu- tratados como animais- os utentes daquele lar, abandonados totalmente à sua sorte e a funcionária que alertou e que acabou por morrer também.em mais lares por todo o país faleceram mais pessoas, pessoas que contribuiram para a construção de um país.

este país não é para velhos mas tem de ser, pois se fossem familiares de políticos, talvez percebessem como todos os cuidados têm de ser redobrados quer nos lares , quer nas casas de cada um.

entretanto, leio Matilde Campilho no seu Flecha, 1ª ediçãoJulho de 2020 :

" Um grupo de formigas faz o percurso encarreirado entre o musgo e o buraco. Cada uma delas leva alguma coisa às costas: um pedaço de casca de árvore, uma pata de besouro, um resto de palha, uma outra formiga já cansada, um grão de terra, uma lasca de concha. Um rapazinho, de cócoras, observa o movimento daqueles bichos pretos e analisa- à vez- cada vestígio de vida que se move à boleia de outra vida." p. 104

( todos os direitos reservados a Matilde Campilho)

a todos os pereceram nesta pandemia

a todos os mais velhos 

@mmalheiro

 

 

publicado às 22:30

# Da apologia de um ensino de proximidade

iniciou-se na semana passada, oficialmente, por força das dramáticas circunstâncias em que vivemos ( a pandemia do Covid-19) , um ensino à distância (EAD).

se em alguns casos há computadores para cada filho, pais a partilharem esses computadores pois estão em teletrabalho, na maior parte dos casos não há nem computadores, nem internet, nem telemóvel.

há alunos cujas famílias têm de ir buscar o almoço à escola porque pertencem ao escalão A, ou seja, os pais recebem menos do que o ordenado mínimo nacional.

muitos desses alunos não têm computador, nem tablet, nem telemóvel.

quando dizem aos diretores de turma- "ah o meu pai não recebeu o email, o email não funciona", o professor percebe logo que, no meio de tudo aquilo há uma imensa vergonha, a vergonha da pobreza, do desemprego, da escassez de meios. vergonha que vai aumentar com a crise económica que se aproxima.

há 13 anos atrás o programa E-escolas trouxe ,talvez de forma megalómana, um computador para cada aluno, um magalhães ou um portátil antigo reciclado. nenhum estudante estava como hoje a dizer "tenho os trabalhos feitos mas não os posso enviar, não tenho Internet".

é realmente de aplaudir o esforço de professores, diretores de turma, diretores de escola, presidentes da câmara, na gestão deste ensino à distância.

hoje um aluno sem computador, sem telemóvel, teve direito a um tablet emprestado da escola.

a diretora de turma quase chorava ao telefone a contar isto. "vai fazer os trabalhos todos, dizia-me."

à beira da reforma esta professora leciona desde o 25 de abril de 1974, talvez por isso tenha este espírito de solidariedade e partilha com os seus alunos.

eu só pensava que há aqui algo de muito errado. planifique-se o ensino à distância, a pseudo-telescola mas pense-se nos alunos nos seus contextos sociais.

se houver uma segunda "onda" de covid-19 no outono como vão aprender estes miúdos , com os pais no desemprego, no lay-off, a buscarem refeições à escola, com rendas em atraso, enfim, numa incrível precariedade económica?

portanto, hoje mais do que tudo há um ensino de proximidade, à distância de um telefonema mesmo dentro de um confinamento necessário.

à professora Dolores e a todos os professores 

@mmalheiro

 

publicado às 01:48

# Dias de pandemia- o olhar de Zizec

No momento em que editores e livreiros se confrontam com uma quebra nas vendas, há quem aposte e bem na versão digital de livros , muitas vezes em formato de download gratuito. Portanto, empresas do ramo livreiro e editorial estrangeiras colocaram à disposição dos "confinados" milhares de livros.

O Arquivo de Internet Mundial tem as suas portas abertas para muitas leituras, assim como várias bibliotecas que  disponibilizaram o seu acervo digital.

Hoje ao ler uma entrevista do filósofo Zlavoj Zizec soube que publicara há dias um ensaio sobre esta pandemia e que estava num momento incessante de escrita, em virtude deste contexto trágico em que nos encontramos. Preparava-me para comprar o seu ensaio na OR Books quando me deparei com a agradável surpresa de um dowload gratuito para os primeiros 10.000 leitores.

Portanto, Pandemic já está aberto e a ser lido com muita gratidão a estes editores.

As primeiras páginas aproximam-se da visão do filósofo português José Gil "A pandemia e o capitalismo numérico" lida hoje no jornal Público. Afirma Zizec (2020, p. 39) :

" (...) But maybe another and much more beneficent ideological virus will spread and hopefully infect us: the virus of thinking of an alternate society, a society that actualizes itself in the forms of global solidarity and cooperation" . 

Lendo, a par deste magnífico ensaio , um livro de organização pessoal da japonesa Marie Kondo, penso que, de facto, há um excesso de bens materiais nas sociedades ditas "capitalistas" por oposição áqueles que lutam por comida numa rua ( imagens ontem do Quénia na TV).

Se agora que tudo está parado , confinado em casa, os níveis de poluição diminuiram drasticamente, sendo isto visível do espaço, quando este confinamento cessar voltaremos a uma sociedade poluída a todos os níveis?

Sendo este um tempo de aparente pausa, refletamos sobre o que pensadores e cientistas nos mostram , para além das curvas e dos planaltos que os matemáticos analisam em grupo e discutem entre si. Cada número na estatística dos óbitos faz falta a alguém.

Para além da estatística tem de haver esperança e reflexão sobre o futuro próximo que nos espera e que afeta todos os nossos familiares, amigos, colegas, conhecidos, vizinhos, etc, etc, etc.

Pode adquirir aqui o ensaio - Pandemic (Or Books), 2020- all rights reserved to Zlavoj Zizec

@mmalheiro

 

 

 

 

publicado às 22:53

# da viagem na fase de mitigação

dias antes de entrarmos no estado de emergência, quando acrescentei um novo número à minha idade, recebi uma prenda que namorei numa qualquer livraria, um livro de viagem mas não uma viagem qualquer, a viagem recorrente de um homem da cultura a um país que adorava visitar e que agora sucumbe a este maldito vírus: Itália.

rapidamente acompanho com prazer a escrita de António Mega Ferreira:

" O quadro de Carpaccio reflete tudo isto, ainda que indiretamente, pelo menos aos meus olhos. A imagem é de uma nitidez e intenção claramente naturalista e mostra-nos , realmente, como a cidade se acha absolutamente consolidada, voluntariamente afastada desses grandes debates urbanísticos e políticos próprios do espírito tardo-medieval, primeiro, e renascentista, depois: Veneza, a Veneza de Carpaccio, possivelmente a Veneza eterna, é um organismo espetacular, autorefletor, cujas imagens reproduzem a sua historicidade, alheia aos grandes gestos inovadores e avessa aos "estrangeirismos" que lhe perturbem o equilíbrio tão prodigiosamente representado no quadro".

António Mega Ferreira in Itália,Práticas de Viagem, Sextante Editora, reimpressão de janeiro de 2020, pp.36-37

( Todos os direitos reservados a António Mega Ferreira)

para escutar nesta fase de mitigação ( all rights reserved to Simon and Garfunkel)

[ O que é importante é preencher o tempo, aproveitar para fazer coisas que habitualmente não temos tempo para fazer, como ler livros.] António Coimbra de Matos, 25/03/2020

@mmalheiro

publicado às 00:26

# Do ritmo circadiano de um trabalhador

Hoje surgiu a notícia (Fonte:LUSA) de que a Fenprof pediu ao Ministério Público para averiguar a morte repentina de três professores: uma em Manteigas em plena sala de aula, outra na Covilhã em serviço oficial ( corrigia as Provas de Aferição) e outro em Odivelas ( enviava as classificações por email). Como professora considero chocante esta notícia e lamento muitíssimo pelos meus colegas.

Há cerca de 7 meses um familiar meu teve um ataque cardíaco fulminante em pleno local de trabalho , num prestigiado Banco português. Com apenas 53 anos o  excesso de trabalho,- ter muito stress-, foi a justificação dada aos familiares diretos. Colegas que assistiram impotentes à sua hora fatal e tentaram por todos os meios a reanimação estão ainda de baixa psiquiátrica, a família ainda em choque com a perda inesperada.

Tanto no caso dos colegas como do meu familiar o problema é o mesmo: a doença do séc. XXI ,  o burnout.Primeiro, o excesso de trabalho quer a nível de procedimentos burocráticos no caso dos professores- que, muitas vezes se apresenta pela duplicação ou triplicação de procedimentos, nada "simplex" ,  tudo muito inclusivo, com muitas medidas universais, adicionais, etc. Depois, a disponibilidade do professor/ trabalhador- contactável via email, telefone, pessoalmente, fora do horário de trabalho, aos fins de semana, feriados ( obrigada a quem inventou o modo reencaminhamento do email oficial...).

Segue-se o trabalho que se leva para casa. No caso de um trabalhador da área financeira, passa pelo trabalho em modo controlo remoto, fora das horas de expediente. No caso de um professor há também muito trabalho- quer na preparação das aulas, preparação de reuniões, correção de testes de avaliação e todo o tipo de instrumentos de avaliação aplicáveis, correção de provas de aferição, exames nacionais, etc e plataforma informática. Onde fica a vida pessoal? Tem de ser meticulosamente programada como a escala de Bancos dos médicos.

O cumprimento do dever por parte de um trabalhador não é consentâneo com faltas por motivo de doença do próprio, dos familiares diretos ( pais, por exemplo) ou de filhos menores ( até aos 12 anos). Muitas vezes isso é visto como uma fraqueza por parte do trabalhador. Mau para a sua avaliação de desempenho. Por isso, os professores e todos os trabalhadores cumpridores ou entram em burnout ou partem fatalmente. Uma tragédia. 

Há 10 anos numa escola onde dei aulas e donde se avistava a pista 5.2 do Aeroporto de Lisboa lembraram-se de criar aulas de Yoga para professores, depois do serviço. No meu caso não corria muito bem , pois no meio do Ooomm só pensava na lista de compras do supermercado e não desligava. Foi nessa época que comecei a caminhar e a correr, primeiro na pista do Guincho, depois no paredão de Oeiras, fizesse sol ou chuva, seguindo as passadas de Murakami. Há três anos a cardiologista  recomendou-me muita caminhada e melatonina ( na versão natural)- sentir o coração como que a saltar-nos pela boca é aflitivo. Mais do que aflitivo. Responderem-nos-  tive um problema cardíaco - e então?- revela a perfeita desumanidade do meio laboral. 

Eu e muitos colegas não conseguimos este ano, nem correr, nem caminhar, nem esticar as pernas entre testes, reuniões de encarregados de educação, reuniões , papéis, papéis, papéis. Submergidos em papéis.

Valeu-me a alegria dos meus e a noção de que a saúde para viver e para os criar está acima de tudo, até do trabalho.

Aos meus colegas professores

Ao meu primo Xana, in memoriam

@mmalheiro

publicado às 23:33

# Da vida numa bolha- a Educação ( feat. Madness)

há dias assim: de manhã leio um artigo de um padre em picardia com um secretário de Estado, à hora de almoço cai no meu email um blog novo de um professor, de carreira feita, provavelmente num escalão aceitável para viver tranquilamente e que subitamente se cansou de tudo e meteu Licença sem Vencimento de Longa Duração. O que este professor escreve é demonstrativo da absoluta verdade, fora de uma bolha que querem parecer aos outros "perfeita", a da Educação. Se os relatórios da OCDE e do CNE revelam aquilo que já se sabe, que há uma classe docente envelhecida e cansada, sem renovação de quadros, com candidatos a docentes de carreira com vinte anos de serviço, no lado da "bolha educativa" há a visão fantástica de disciplinas de projeto de cidadania, de dispensa de três horas aos funcionários públicos no primeiro dia de aulas dos filhos, de passes familiares em autocarros com menos cadeiras ou comboios a abarrotar de gente, de uma escolaridade obrigatória menos exigente, sujeita a domínios de aprendizagens essenciais, em que o acesso à informação é totalmente "simplex" nada "complicadex" -com algum interesse  como há 25 anos atrás -quando se tinha de pesquisar mesmo  para aprender. Que geração será esta no futuro? uma geração em que lhes é transmitido que tudo é fácil,  que não é necessário grande empenho para transitar de ano, em que o respeito pelo outro- professor, pais, funcionários, qualquer um- é algo tão mínimo e relativo que se dissipa pelo tempo. lembro-me da minha professora de História do 12º ano nos ter dado ,no ínicio do primeiro período, três páginas de bibliografia para pesquisarmos e estudarmos. pensámos na altura que era uma megera insana. no primeiro ano da Faculdade e seguintes a história era igual. É questionável, então, se há tempo por parte do aluno para a aquisição plena dos conhecimentos e para uma perspetiva crítica sobre os mesmos ou se serão mais importantes os papagaios de papel que se lançam numa praia, em prol de um projeto de escola. 

Fica aqui ,para seguir , o Blog https://lsvld.blogspot.com/.

Música dos Madness- all rights reserved to Madness.

 

@mmalheiro

 

publicado às 12:27

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