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Blog de escrita nas horas extra dos dias

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# Portugal, futebol e covid-19

Portugal, junho de 2020.

Há poucos dias , o Governo anunciou, num claro ato "teatral"- quase pensei que Sócrates tinha regressado- a salvação da economia do país. Pensei estar claramente a alucinar.

Como uma peça de teatro anunciou-se que a salvação passa pelo futebol, com a final da Champions em Lisboa.

Ao mesmo tempo , o número de infetados em todo o país aumenta, quer seja pelo desconfinamento, quer seja pela exposição maior ao contágio, quer seja pelo facto de haver festas ilegais e claras transgressões à saúde pública.

Esta semana duas notícias que são tristemente reveladoras do estado do país marcaram-me. 

Uma foi a do imigrante indiano que morreu de acidente em Beja -atravessou-se um animal à frente do carro- e foi levado em braços pelo amigo que conduzia o carro, que não fala português, e por outros dois amigos, para o hospital. Trabalhavam todos na agricultura no Alentejo, como a maior parte dos imigrantes que chega a Portugal.

Não há monda portuguesa nos campos, agora, mas mondas com assalariados mal pagos, que pouco ou nada falam português, que pouco ou nada sabem das leis do trabalho que os protegem.

Outra notícia foi a do médico que faleceu no início da noite de 4ª feira no Hospital de S.José. Esteve ventilado nos cuidados intensivos do hospital, muito mal, durante 45 dias, por absoluta vontade de todos. Adoeceu com Covid-19 em serviço e morreu entre os seus pares.

Neste momento em que se anuncia futebol e festa ,para esconder um grave problema de saúde pública, quantos professores das escolas públicas e privadas foram testados? Quantos médicos e enfermeiros foram testados por todo o país?

Neste site Ourworldindata estão os dados mais fidedignos, reais, da comunidade científica internacional. 

O prémio não pode ser futebol, Sr.P. Ministro, o prémio tem de ser organização e segurança na saúde pública para todos. 

@mmalheiro

publicado às 18:57

# Do Homem precário ( feat. Art of Noise)

Ontem passou num dos canais generalistas uma reportagem sobre os portugueses que vivem nos Estados Unidos, daqueles que foram delicadamente "enviados" para o estrangeiro com uma espécie de pseudo-argumento "vai-te lá embora que aqui não há trabalho para ti", dito pelo ex- primeiro-ministro.

De modo que, muitos jovens ou não,  licenciados, pós-graduados, mestres, doutores, se fizeram à  vida da "exportação intelectual".

Não regressarão. Se calhar fazem bem, face às magníficas palavras do presidente da CIP, hoje, sobre a precariedade.

Com esta mentalidade de dumping laboral, muitos mais partirão, infelizmente.

@mmalheiro

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publicado às 19:03

# Vindimar a palavra inteligente ( feat. Leon Bridges )

 

Leon Bridges, concerto no Glantonburry Festival, Agosto de 2015 ( all rights reserved to the great Leon Bridges)

Muitos opinam -em tempo de "Campanha alegre" mas tão murchinha ( a precisar de rega inteligente - já que agora não vale a pena plantar ideias em época de vindima...)- com palavras tão vazias de sentido e que ficarão fora de jogo no dia das eleições.

Portanto, ler a palavra certa e inteligente é algo raro mas existe.

Leia aqui o excelente artigo de José Pacheco Pereira sobre Portugal ( certamente se Eça e Ramalho Ortigão fossem vivos concordariam com estas palavras e lançariam outra "farpa" certeira).

@marinamalheiro

 

 

publicado às 11:13

# Do Jogo ( feat. London Grammar)

O lugar-comum da "vida é um jogo" aplica-se literalmente por estes dias e não é preciso ser-se o génio matemático que inventou a teoria dos jogos ou o físico que se interessa pelo efeito borboleta.

No entanto, mais do que a beleza das leis da Física e  de tudo o que a Ciência comporta, a vida dos outros é cada vez mais regida pelos outros acima, pelos que, como num jogo de futebol chutam para fora ou para canto, evitando grandes penalidades.

É isso que acontece neste momento em que se constroem muros de arame farpado pela Europa, em que crianças refugiadas morrem na praia ou em camiões na estrada a caminho de um destino livre.

Os de cima chutam para canto ou olham passivamente para o ar, para ver para onde vai cair a bola. Provavelmente para o lado da Economia.

Prefiro as grandes penalidades ou os remates a sério, sem mão alheia na vida: esse é o jogo que importa.

https://www.youtube.com/watch?v=AOGPCFAGobs&hd=1 Wicked game cover pelos excelentes London Grammar , 2013 ( all rights reserved to London Grammar)

@marinamalheiro

 

 

publicado às 19:13

# Da política da avestruz e da terra queimada

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                           Foto de Robert Doisneau, 1949, Parque de bicicletas

                           É Verão e, apesar dos dias mornos, em que apetece desligar e não pensar em nada, dando descanso às "sinapses", não se pode adotar uma política de avestruz e esquecer a crise que o país atravessa. Ainda falta muita limpeza de "Verão", muita criação de postos de trabalho, oportunidades para novas empresas ou PME, reestruturar setores- chave como a Educação e Saúde. Muitos eteceteras.

Hoje alguém me dizia que os setores não se resumiam às áreas mas às pessoas, que as pessoas também estavam paradas, estagnadas, sem rumo. É verdade. Já partiu 20% da população para o estrangeiro.

Quantos mais partirão?

Não se pode adotar a política da terra queimada - do vamos lá " dar cabo do sistema todo", arrasar aquilo que é importante, naquela que é a ideia-chave neoliberal, em prol da Economia, uma economia que identifica as pessoas como números, sem nome, sem identidade.

Todos somos pessoas , estando muitas já nos planos "E" ou "F" das suas vidas.

Quantos mapas de vida precisarão milhares de portugueses de fazer depois dos dias mornos? 

Quantas vezes terão de escutar esta música?

@marinamalheiro

publicado às 20:07

# Da esquizofrenia dos países (feat. Interpol)

Hoje numa reportagem de rua, na Grécia, entrevistavam uma jovem grega -" então não vai levantar 60 euros?" Respondia que não podia levantar tal montante porque auferia apenas 400 euros por mês e estava em grandes dificuldades.

No país em que se decidirá o futuro da Europa há miséria e há grande riqueza. Há quem tenha dinheiro para ir ao médico,  tenha iates em ilhas paradisíacas e quem passe fome.

Mas, apesar de tudo há otimismo.

Se entrevistassem um português este diria que não tem dinheiro para os 20 euros que terá de pagar numa urgência hospitalar, ou para pagar a eletricidade. No entanto, se for para ir ver um jogo de futebol o caso muda de figura.

Se for para pensar que a educação pré-escolar começa antes (muito antes) dos 4 anos de idade e de que a Educação é um direito segundo a CRP....

É Verão, os problemas do país estão lá- arrumadinhos numa prateleira- até às eleições.

Uma chatice isto da cidadania, muito diferente da cidadania grega que, quer seja "oxi" ou "sim" ou "nim" ( como o PCP grego apela) se exerce todos os dias em Atenas.

to my greek family

@marinamalheiro

                          

 

 

publicado às 19:18

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