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Blog de escrita nas horas extra dos dias

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# Este país não é para velhos II

Hoje um profissional de saúde disse-me com uma frieza desconcertante "morreu, já tinha 80 anos, tinha de morrer", depois de eu relatar o caso de um familiar de alguém que morreu de Covid19, após ter sido infetado pela auxiliar de saúde que ia a sua casa.

Pergunto aos profissionais de saúde - médicos e enfermeiros - se fosse o caso de um familiar seu se seriam tão frios assim, de uma frieza sueca. 

Será tudo descartável, velhos a mais, velhos doentes, pessoas que contribuíram para o país?

Há semanas li algures que alguém fazia uma tese de mestrado sobre a comunicação amável entre médico e paciente, pois muitas vezes a palavra soa a "morgue hospitalar" :  "olhe, tem um cancro e idade ou não sabe?".  Por contraste há quem meça as palavras, talvez por ter outra cultura, de outro país : "olhe, se a senhora fosse saudável, o seu organismo obedeceria,  tal não é o caso."

Conheço um caso em que uma família não se pôde despedir da sua ente querida, doente terminal e, por força das leis Covid19 nem sequer viu essa ente querida em descanso eterno. 

Termino dizendo que este país foi feito por velhos de 70/80 anos que lutaram em tempos idos para que houvesse democracia, SNS, educação e saúde para todos, emprego, habitação, condições de vida, igualdade, liberdade, justiça. 

Portanto, quando parte um velho, não é só uma biblioteca inteira é uma parte de um país que se chama Portugal.

Aos meus pais. 

@mmalheiro

 

publicado às 20:35

# Das sementes de violência num país chamado Portugal

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Numa semana em que foram vários os casos de violência contra médicos em centros de saúde e hospitais, veio parar-me aos "olhos" ( Crónica de MEC no Público de hoje) uma reportagem sobre um bailarino homossexual que acabou os seus dias no Hospital Miguel Bombarda em Lisboa por culpa do regime salazarista. Foi sujeito a uma lobotomia- tratamento criado por Egas Moniz que lhe trouxe um prémio Nobel-e foi uma vítima até ao fim.

O antigo "Rilhafoles" foi palco de uma tragédia em 1910,  quando o médico Dr. Miguel Bombarda foi alvejado por um doente "louco", oficial do exército,  2 dias antes  do 5 de outubro.Acabaria por morrer no hospital de S.José. 

Saúde mental e violência são temas pouco abordados em Portugal. Os casos de violência para com médicos, professores são reveladores de uma sociedade violenta e com problemas de saúde mental. Reclamar de um serviço público é possível- está lá o livro de reclamações.

Atirar mesas, cadeiras, partir telemóveis e teclados, esmurrar professoras grávidas, atropelar propositadamente professores, encurralar médicos em gabinetes e feri-los de tal maneira que necessitam de procedimentos cirúrgicos é gravíssimo. Os serviços públicos estão com falta de pessoal, de meios para trabalhar, de boa gestão de serviços ( o Ministro Santos Silva referiu-se aos maus gestores nas empresas, faltam muitos e bons gestores de recursos humanos nos serviços públicos, provavelmente em todos os setores). Hoje um hospital da área de Lisboa está com "constrangimentos"- 9h de atraso para atendimento de doentes com pulseira verde ( menos urgentes), estando os doentes a ser encaminhados para outros hospitais.

O excedente do défice orçamental de Centeno conduz a este caos. Contratando mais pessoal, quer para os hospitais, USF, escolas, serviços administrativos vários do Estado- nomeadamente Segurança Social- e até colocando algo tão simples como cadeiras em Bancos estatais ( estive numa sucursal que tem 6 cadeiras apenas para uma vasta população, a maioria idosa), regularizando processos do Simplex de Mariano Gago, mas, sobretudo, analisando socialmente uma população mentalmente doente , talvez o país entre num rumo "normal". Nada disto é normal. 

Saúde, Educação, Administração Interna , Economia são como "órgãos em falência" num corpo moribundo chamado Portugal. 

Para consulta fica aqui o Relatório da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa sobre a Saúde Mental e um artigo de Tiago Santos ( 10/10/2019/ Público) sobre o estado da Saúde Mental em Portugal.

@mmalheiro

[Nenhum político deve esperar que lhe agradeçam ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas era ele quem devia agradecer pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos.]

Agostinho da Silva

 

publicado às 22:04

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